O gabinete do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), divulgou uma nova nota oficial nesta quinta-feira (12), na qual o magistrado confirma integrar o quadro societário da Maridt Participações. A empresa em questão foi sócia do Tayayá Resort, empreendimento de luxo localizado em Ribeirão Claro, no interior do Paraná. A manifestação ocorre em meio a uma crescente pressão gerada por investigações da Polícia Federal (PF).
Apesar de reconhecer a participação na empresa familiar, a assessoria de Toffoli foi enfática ao afirmar que o ministro "nunca manteve qualquer relação financeira ou pessoal" com o banqueiro Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, ou com pessoas de seu círculo íntimo. A declaração visa rebater as suspeitas levantadas após a apreensão de celulares do banqueiro, que revelaram menções a autoridades públicas.
O contexto das investigações e o relatório da PF
A nova manifestação de Toffoli surge menos de 24 horas após ele ter classificado as conclusões da Polícia Federal como "ilações". A PF identificou, em mensagens extraídas dos aparelhos de Vorcaro, referências a supostos pagamentos e transferências que teriam o ministro como beneficiário.
O material coletado pelos investigadores resultou em um relatório robusto, de quase 200 páginas, que foi entregue pelo diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, diretamente ao presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Edson Fachin. Segundo apurações divulgadas pela imprensa, incluindo informações da CNN Brasil, as conversas envolvem não apenas o banqueiro, mas também seu cunhado, o empresário e pastor Fabiano Zettel.
A linha de investigação busca esclarecer se repasses financeiros teriam sido operados de forma triangular, utilizando a estrutura societária que ligava a empresa da família de Toffoli a fundos de investimento conectados ao Banco Master.
A estrutura do negócio e a defesa do Ministro
No comunicado divulgado nesta quinta-feira, a defesa de Toffoli detalha a operação para afastar a tese de conflito de interesses ou corrupção. O ministro sustenta que sua presença como acionista da Maridt Participações é perfeitamente compatível com a Lei Orgânica da Magistratura (Loman). A legislação permite que juízes sejam sócios de empresas, desde que não exerçam funções de gerência ou administração — papel que, segundo a nota, é desempenhado pelos irmãos do magistrado.
Um dos pontos centrais da defesa é a cronologia dos fatos. O texto explica que a Maridt se desligou do empreendimento Tayayá em duas etapas distintas:
- Setembro de 2021: Venda parcial de cotas ao Fundo Arllen (ligado a Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro).
- Fevereiro de 2025: Alienação do restante da participação para a PHD Holding, associada ao empresário Paulo Humberto Costa.
A assessoria destaca que o vínculo de Toffoli com o resort foi encerrado definitivamente em fevereiro de 2025. Esse dado é utilizado para justificar que não haveria impedimento para que o ministro atuasse no processo envolvendo o Banco Master, para o qual foi designado relator apenas em novembro de 2025 — nove meses após a saída da sociedade.
Mensagens cifradas e "ilações"
A perícia concluída na quarta-feira (11) e divulgada pela imprensa aponta que, além das menções feitas por terceiros, o próprio ministro Toffoli teria feito referências a pagamentos em conversas, porém de forma "cifrada". O ministro nega veementemente essa interpretação.
No comunicado, Toffoli afirma desconhecer o gestor do Fundo Arllen e reitera não possuir amizade com Daniel Vorcaro. A nota enfatiza que todas as transações de compra e venda de cotas da Maridt foram realizadas dentro dos valores de mercado e devidamente declaradas à Receita Federal, sem qualquer irregularidade fiscal.
Confira, na íntegra, a nota divulgada pelo gabinete:
"A Maridt é uma empresa familiar, constituída na forma de sociedade anônima de capital fechado, prevista na Lei 6.404/76, devidamente registrada na Junta Comercial e com prestação de declarações anuais à Receita Federal do Brasil. Suas declarações à Receita Federal, bem como as de seus acionistas, sempre foram devidamente aprovadas.
O Ministro Dias Toffoli faz parte do quadro societário, sendo a referida empresa administrada por parentes do Ministro. De acordo com a Lei Orgânica da Magistratura, no artigo 36 da Lei Complementar 35/1979, o magistrado pode integrar o quadro societário de empresas e dela receber dividendos, sendo-lhe apenas vedado praticar atos de gestão na qualidade de administrador.
A referida empresa foi integrante do grupo Tayaya Ribeirão Claro até 21 de fevereiro de 2025. A participação anteriormente existente foi integralmente encerrada por meio de duas operações sucessivas, sendo a primeira a venda de cotas ao Fundo Arllen, em 27 de setembro de 2021, e a segunda a alienação do saldo remanescente à empresa PHD Holding, em 21 de fevereiro de 2025.
Deve-se ressaltar que tudo foi devidamente declarado à Receita Federal do Brasil e que todas as vendas foram realizadas dentro de valor de mercado. Todos os atos e informações da Maridt e de seus sócios estão devidamente declarados à Receita Federal do Brasil sem nenhuma restrição.
A ação referente à compra do Banco Master pelo BRB foi distribuída ao Ministro Dias Toffoli no dia 28 de novembro de 2025. Ou seja, quando há muito a Maridt não fazia mais parte do grupo Tayaya Ribeirão Claro.
Ademais, o Ministro desconhece o gestor do Fundo Arllen, bem como jamais teve qualquer relação de amizade e muito menos amizade íntima com o investigado Daniel Vorcaro. Por fim, o Ministro esclarece que jamais recebeu qualquer valor de Daniel Vorcaro ou de seu cunhado Fabiano Zettel."
O caso segue sob análise do presidente do STF, Edson Fachin, que deverá decidir os próximos passos em relação ao relatório apresentado pela Polícia Federal. Parlamentares da oposição já se movimentam para questionar a permanência do ministro na relatoria de processos ligados ao banco.
*Com informações da CNN Brasil e Agência Estado.

