Cinco ministros do STF aparecem como sócios de 11 empresas

Geovana Nascimento

 

Um levantamento baseado em dados da Receita Federal apontou que cinco ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) mantêm participação societária em empresas de diferentes setores da economia. A informação, divulgada pelo portal UOL e repercutida pelo Pleno.News na sexta-feira (7), indica que Gilmar Mendes, Nunes Marques, André Mendonça, Cristiano Zanin e Flávio Dino aparecem como sócios em ao menos 11 empresas que atuam em áreas como agronegócio, educação, advocacia e gestão imobiliária.

O tema ganhou maior visibilidade após declarações recentes do ministro Dias Toffoli, que defendeu publicamente a possibilidade de magistrados possuírem fazendas e participarem de empresas como sócios, com direito a recebimento de dividendos. Segundo ele, esse tipo de participação é compatível com a função pública, desde que observados os limites legais.

A discussão ocorre em um momento de atenção ampliada sobre a atuação e a vida privada de integrantes da Corte. Reportagens recentes também mencionaram relações empresariais envolvendo o banco Master e pessoas próximas a ministros do STF, como parentes de Toffoli e a esposa do ministro Alexandre de Moraes, o que ampliou o debate sobre transparência e potenciais conflitos de interesse.

De acordo com especialistas em direito público, a Lei Orgânica da Magistratura Nacional (Loman) estabelece restrições à atuação de juízes na administração de empresas, mas não proíbe, de forma geral, que magistrados sejam sócios ou acionistas. A vedação recai principalmente sobre o exercício de funções de gestão ou direção empresarial que possam comprometer a independência do cargo. Procurado, o STF afirmou que a legislação é respeitada pelos ministros.

Entre os casos citados no levantamento, o ministro Gilmar Mendes aparece como sócio da Roxel Participações, uma holding com capital social de R$ 9,8 milhões. Também figuram como sócios da empresa Francisco e Laura Mendes, filhos do ministro. A Roxel, segundo os registros, integra o quadro societário de outras companhias, como o Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), a MT Crops e a GMF Agropecuária.

O IDP é uma instituição de ensino superior que oferece cursos em áreas como Direito, Economia e Administração. A entidade é administrada por Francisco Mendes. Já a MT Crops, sediada em Diamantino (MT), atua no comércio atacadista de insumos agrícolas, incluindo defensivos, fertilizantes e corretivos de solo. A GMF Agropecuária, por sua vez, é uma propriedade rural em Alto Paraguai (MT) voltada ao cultivo de soja e tem, além de Gilmar Mendes, irmãos e um cunhado do ministro entre os sócios.

O ministro Nunes Marques também aparece vinculado a empresas. Ele é sócio da Nunes & Marques Administradora de Imóveis, criada em 2014 e direcionada à gestão de patrimônio imobiliário. Como sócios constam ainda a irmã do ministro, Karine Nunes Marques, e seu filho, Kauan de Carvalho Marques.

Além disso, Nunes Marques figura como sócio da empresa Educacional e Capacitação Ltda., aberta em junho de 2025, já durante seu período no STF, iniciado em 2020. Administrada por uma sobrinha do ministro, a empresa tem como atividade principal registrada o treinamento em desenvolvimento profissional e gerencial. Em nota, o gabinete do ministro confirmou a existência das sociedades e explicou que a Educacional tem como objeto social a realização de palestras, enquanto a Administradora de Imóveis é uma empresa patrimonial voltada à administração de bens da família.

No caso do ministro André Mendonça, consta a empresa Integre Cursos e Pesquisa em Estado de Direito e Governança Global, aberta em maio de 2022, poucos meses após sua posse no STF, ocorrida em dezembro de 2021. A esposa do ministro, Janey Mendonça, aparece como sócia. Mendonça também esteve ligado ao Instituto Iter, fundado em novembro de 2023, que tinha entre os sócios iniciais a Integre Cursos, Janey Mendonça e nomes ligados ao governo federal, como o ex-ministro da Educação Victor Godoy.

Em 2024, o Instituto Iter foi transformado em sociedade anônima, e apenas Victor Godoy permaneceu visível nos registros públicos. Mesmo assim, a empresa continuou comercializando palestras de Mendonça. Reportagem do jornal O Estado de S. Paulo, de outubro de 2025, informou que o instituto teria faturado R$ 4,8 milhões em contratos públicos.

O ministro Cristiano Zanin aparece como sócio da Attma Participações, empresa direcionada à gestão de imóveis próprios. A companhia possui capital social de R$ 260 mil e tem como sócia a esposa do ministro, Valeska Zanin.

Já o ministro Flávio Dino é apontado como sócio do Instituto de Estudos Jurídicos (IDEJ), fundado em 2003 sob o nome fantasia Dínamo Educacional. A empresa foi criada em sociedade com o irmão do ministro, Sálvio Dino Jr., e tem como principal atividade a oferta de cursos preparatórios para concursos públicos. Por meio da assessoria de imprensa do STF, Dino informou que o IDEJ foi fundado há mais de 20 anos, antes de sua chegada ao Supremo.

A presença de ministros como sócios de empresas não é, por si só, considerada ilegal pela legislação atual. Ainda assim, o tema costuma suscitar debates sobre ética, transparência e possíveis conflitos de interesse, especialmente quando as atividades empresariais se relacionam a setores regulados pelo poder público ou envolvem contratos com o Estado. Até o momento, não há indicação de irregularidades formais nos casos citados, mas o assunto segue em discussão no meio jurídico e político.

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