O banqueiro Daniel Vorcaro afirmou à Polícia Federal que manteve conversas com o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), a respeito da tentativa de venda do Banco Master ao Banco Regional de Brasília (BRB). A informação consta em depoimento prestado por Vorcaro no dia 30 de dezembro e veio a público após o jornal Estadão ter acesso ao conteúdo do interrogatório, que integra o inquérito que apura suspeitas de crimes financeiros envolvendo a operação.
Segundo Vorcaro, os contatos com Ibaneis ocorreram em mais de uma ocasião e teriam se dado tanto em encontros institucionais quanto em visitas de caráter pessoal. O banqueiro relatou ainda que o governador chegou a ir à sua residência, embora não tenha detalhado o teor das conversas nem esclarecido se houve participação direta do chefe do Executivo local nas negociações envolvendo a venda do Master ao banco estatal do Distrito Federal.
A revelação acrescenta um novo elemento ao caso que vem sendo investigado pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal e que tramita no Supremo Tribunal Federal (STF). O inquérito busca esclarecer as circunstâncias da tentativa de venda do Banco Master ao BRB, anunciada oficialmente em março, mas que acabou sendo vetada pelo Banco Central em setembro do mesmo ano. Pouco tempo depois, o BC decretou a liquidação do Banco Master, agravando ainda mais a crise em torno da instituição.
Procurado para comentar as declarações de Vorcaro, o governador Ibaneis Rocha negou que tenha tratado da operação com o banqueiro. Em resposta ao Estadão, Ibaneis afirmou que esteve apenas uma vez na casa de Vorcaro, durante um almoço, e minimizou qualquer conversa sobre o negócio.
“Estive uma vez a convite para um almoço, quando conheci ele. Entrei mudo e saí calado”, declarou o governador, reforçando que não participou de discussões sobre a venda do banco. Ibaneis também destacou que não é investigado no inquérito em curso no STF, posição que foi confirmada por fontes ligadas à apuração.
Apesar disso, o nome do governador aparece de forma recorrente nos depoimentos colhidos pelas autoridades. Além de Vorcaro, o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, também afirmou em depoimento que Ibaneis teria sido informado sobre o andamento das tratativas entre o banco estatal e o Master. A informação foi inicialmente divulgada pelo portal UOL e posteriormente confirmada pelo Estadão, aumentando a pressão política em torno do caso.
As investigações conduzidas pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal apontam indícios de que o Banco Master teria vendido ao BRB cerca de R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito consideradas inexistentes ou sem lastro suficiente. De acordo com os investigadores, o prejuízo potencial causado ao banco estatal do Distrito Federal pode chegar a aproximadamente R$ 4 bilhões, valor que acendeu um alerta nas autoridades regulatórias e no sistema financeiro.
A tentativa de venda do Master ao BRB foi vista, à época, como uma operação estratégica para fortalecer o banco público distrital. No entanto, após análise técnica, o Banco Central vetou o negócio, alegando riscos à solidez do sistema financeiro e inconsistências nas informações apresentadas. A decisão abriu caminho para uma investigação mais aprofundada, que culminou na liquidação do Banco Master e no avanço das apurações criminais.
O caso ganhou ainda maior repercussão política por envolver um banco estatal e figuras públicas de destaque. Embora Ibaneis Rocha não figure formalmente como investigado, a menção a seu nome em depoimentos levanta questionamentos sobre o nível de conhecimento que autoridades do Distrito Federal teriam tido sobre as negociações e os riscos da operação.
Nos bastidores, aliados do governador afirmam que Ibaneis foi apenas informado de forma genérica sobre tratativas envolvendo o BRB, sem participação direta em decisões técnicas ou negociações financeiras. Críticos, por outro lado, defendem que a simples ciência do caso por parte do chefe do Executivo local já justificaria um escrutínio mais rigoroso sobre sua atuação.
Enquanto isso, o inquérito segue sob análise do STF, com a expectativa de novos depoimentos e possíveis desdobramentos. A apuração busca identificar responsabilidades, esclarecer a dinâmica das negociações e determinar se houve crimes contra o sistema financeiro nacional. O avanço do caso deve continuar a provocar repercussão tanto no meio político quanto no setor bancário, mantendo o Banco Master e o BRB no centro de um dos episódios mais sensíveis do sistema financeiro brasileiro recente.
