Desfile em homenagem a Lula faz TV Globo perder audiência

Geovana Nascimento

 

Rejeição no Ibope: Desfile em homenagem a Lula derruba audiência da Globo e perde fôlego para o futebol

Com enredo focado na trajetória do petista, a Acadêmicos de Niterói registrou números significativamente inferiores à média dominical da emissora, enfrentando resistência do público e concorrência acirrada da Record.

O Carnaval da Marquês de Sapucaí em 2026 trouxe à tona não apenas o brilho das alegorias, mas também a profunda divisão ideológica que atravessa o Brasil. No último domingo (15), a exibição do desfile da Acadêmicos de Niterói gerou um impacto direto e negativo na audiência da TV Globo. A agremiação, que decidiu levar para a avenida um enredo exaltando a figura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), viu os números de sintonização despencarem em relação à programação habitual da emissora.

De acordo com dados da Folha de S.Paulo, entre as 22h10 e 23h35 — período exato da apresentação da escola — a Globo registrou uma média de 11 pontos na Grande São Paulo. Para fins de comparação, o mercado publicitário e televisivo considera esse índice alarmante para o horário nobre de um domingo, especialmente durante a maior festa popular do país. O "pico" de audiência da transmissão não passou dos 12 pontos, evidenciando que o telespectador paulistano, em grande medida, optou por mudar de canal.

O Fantasma da Comparação: BBB e Fantástico

A queda é ainda mais visível quando analisamos o histórico recente. Nos quatro domingos anteriores, a Globo mantinha uma hegemonia tranquila com média de 15 pontos, impulsionada pelas edições do Fantástico e as dinâmicas do Big Brother Brasil. A substituição do entretenimento convencional pelo desfile político resultou na perda de quase um terço do público habitual da "vênus platinada".

Especialistas em mídia sugerem que a "fadiga política" e a rejeição ao tema escolhido pela Acadêmicos de Niterói foram os principais vetores dessa debandada. Enquanto a Sapucaí tentava transformar a trajetória de Lula em poesia carnavalesca, o público parecia buscar refúgio em conteúdos menos polarizados ou em disputas esportivas reais.

Concorrência: O Futebol como Refúgio

Enquanto a Globo amargava índices baixos, a concorrência aproveitou a oportunidade. A Record TV, apostando na transmissão do Campeonato Paulista, conseguiu um desempenho destacado. No mesmo intervalo de tempo, a emissora de Edir Macedo marcou média de 7 pontos, com picos de 10 durante o confronto entre São Bernardo e Corinthians.

O sucesso do "Paulistão" sobre o Carnaval carioca na Grande São Paulo reforça a tese de que o público prefere o embate esportivo à narrativa política no sambódromo. O SBT também se manteve resiliente, alcançando 6 pontos e fechando um cenário onde a soma das concorrentes diretas ameaçou a liderança absoluta da Globo, algo raro em noites de desfile das escolas de samba.

Polêmica na Avenida: Sátiras e Críticas

A baixa audiência não foi o único problema da noite. O conteúdo apresentado pela Acadêmicos de Niterói gerou uma onda de indignação entre setores conservadores. Uma das alas, intitulada "Neoconservadores em conserva", ironizou o apoio da direita brasileira a figuras como Donald Trump e satirizou a família tradicional e o público evangélico.

A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro reagiu duramente nas redes sociais, classificando a apresentação como "escárnio" contra a fé cristã. Por outro lado, o senador Flávio Bolsonaro anunciou medidas judiciais junto ao TSE, alegando que o desfile serviu como propaganda política irregular financiada indiretamente por recursos públicos.

"O país é laico, mas a laicidade não autoriza a humilhação de milhões de brasileiros em nome de uma ideologia disfarçada de cultura", afirmou Michelle em sua manifestação oficial.

O Futuro do Carnaval na TV

Este episódio levanta um debate necessário para as agremiações e para a própria TV Globo: até que ponto a politização extrema dos enredos beneficia o espetáculo? O Carnaval, historicamente, é um espaço de crítica social, mas a personificação em figuras políticas contemporâneas parece estar alienando uma parcela significativa da audiência que busca na festa um momento de união e escapismo.

Com o presidente Lula e a primeira-dama Janja presentes em um camarote na Sapucaí por mais de 8 horas, o evento ganhou contornos de ato institucional, o que, segundo analistas de comunicação, afasta o espectador que não se identifica com a atual gestão federal. A queda de 4 pontos no Ibope é um recado claro do mercado: a mistura entre samba e militância direta pode custar caro para os patrocinadores e para a emissora detentora dos direitos.

A TV Globo, que investe milhões na cobertura do Carnaval, precisará reavaliar como equilibrar a liberdade artística das escolas com a necessidade de manter o interesse de um público cada vez mais fragmentado e impaciente com discursos partidários na televisão aberta.


Reportagem baseada em dados da Folha de S.Paulo e manifestações públicas nas redes sociais. Para análises completas sobre política e mídia, assine nossa newsletter.

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