Sem moral para vestir a farda, Mauro Cid se aposenta do Exército

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O Exército Brasileiro autorizou a aposentadoria antecipada do tenente-coronel Mauro Cid, de 46 anos, ex-ajudante de ordens do ex-presidente Jair Bolsonaro e condenado por envolvimento na alegada trama de golpe. A decisão foi formalizada na noite de terça-feira (27) pelo comandante do Exército, general Tomás Paiva, e estabelece que a saída definitiva do militar do serviço ativo ocorrerá no próximo dia 31 de janeiro.

A medida foi precedida por um parecer técnico elaborado por uma comissão interna da própria Força, que analisou a situação funcional de Mauro Cid e recomendou sua transferência antecipada para a reserva. O documento foi encaminhado ao comando do Exército na semana passada e acabou sendo integralmente acatado, culminando na assinatura da autorização pelo comandante da instituição.

Cid foi condenado a dois anos de reclusão, em regime aberto, por participação no núcleo central da suposta tentativa de golpe investigada pelo Supremo Tribunal Federal. Apesar da condenação, seus advogados ainda atuam junto ao STF para que seja reconhecido o cumprimento integral da pena. A defesa sustenta que o militar já ultrapassou o período de dois anos de restrições, ao somar o tempo em que permaneceu preso preventivamente com o período em que esteve submetido ao uso de tornozeleira eletrônica.

Esse pedido encontra-se sob análise do ministro Alexandre de Moraes e, até o momento, não houve decisão definitiva. Ainda assim, a condenação e o desgaste institucional gerado pelo caso pesaram fortemente no entendimento do Exército de que a permanência de Mauro Cid na ativa era insustentável do ponto de vista disciplinar e moral.

A transferência para a reserva foi realizada por meio da chamada cota compulsória, mecanismo previsto na legislação militar que permite a aposentadoria antes do tempo mínimo regular de serviço, com pagamento proporcional ao período efetivamente cumprido. Mauro Cid soma 29 anos e 11 meses de carreira militar, pouco mais de um ano abaixo dos 31 anos exigidos para a aposentadoria integral. Na prática, a redução em seus vencimentos tende a ser considerada limitada.

Mesmo fora da ativa, o ex-ajudante de ordens continuará tendo acesso a alguns benefícios previstos na carreira militar. Entre eles está o recebimento de uma ajuda de custo equivalente a oito salários, valor destinado a auxiliar no processo de transição para a reserva. Em contrapartida, Mauro Cid deverá desocupar o imóvel funcional que ocupa em Brasília, tendo um prazo de até 90 dias para realizar a mudança.

Pessoas próximas afirmam que o militar ainda não definiu onde pretende residir após a aposentadoria. Ele possui familiares tanto na capital federal quanto no Rio de Janeiro e aguardava a decisão do Exército para organizar seus próximos passos. Com a ida para a reserva, Mauro Cid passa a ter autorização para exercer atividades profissionais fora da carreira militar e avalia a possibilidade de atuar como consultor na área de assuntos militares, aproveitando a experiência acumulada ao longo de quase três décadas de serviço.

Outro ponto que chama atenção é a situação envolvendo sua segurança pessoal. No contexto do acordo de delação firmado durante as investigações, Mauro Cid e seus familiares teriam direito à proteção da Polícia Federal. A PF chegou a sugerir sua inclusão no programa de proteção a testemunhas, medida que contou com o aval da Procuradoria-Geral da República e foi apresentada ao Supremo Tribunal Federal.

No entanto, no fim do ano passado, o militar optou por recusar o benefício. Segundo pessoas próximas, Cid entende que não corre mais riscos e que a manutenção da escolta seria desnecessária. Ele mantém a posição de que sua segurança não está ameaçada, apesar da repercussão nacional do caso.

Nos bastidores das Forças Armadas, a avaliação é de que a aposentadoria de Mauro Cid encerra um dos capítulos mais delicados da história recente do Exército. Para muitos colegas de farda, a permanência do tenente-coronel na ativa tornou-se incompatível com os valores e a disciplina exigidos pela instituição. A percepção interna é de que Cid perdeu a confiança e o respeito necessários para continuar vestindo a farda.

O desfecho é visto por militares da ativa e da reserva como inevitável. Isolado, marcado por uma condenação criminal e alvo de forte rejeição dentro da própria corporação, Mauro Cid deixa o Exército de forma melancólica. Para críticos, trata-se de um triste fim para uma carreira que, durante anos, foi considerada promissora, mas que terminou de maneira irreversível diante do peso das acusações e de suas consequências.

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